quarta-feira, 28 de maio de 2014

Incidente

Não era um dia qualquer, era o pior dia daquele mês para mim. Após ser jogado pra fora de casa pela minha tão “querida” noiva e ser obrigado a pedir hospedagem na casa de um amigo, afinal de contas, as contas não tinham fim, assim como minhas dores de estômago e as enxaquecas. A tal da sorte não dava as caras ultimamente, nem pra mim, nem pro meu time ou pros meus relacionamentos pessoais. Era como se todos ao meu redor tivessem 90% de chance a mais de ganhar na loteria, por exemplo.

A razão pela qual aquele dia, ou melhor, aquela manhã era considerada a pior ainda estava por vir.


Levantei cedo graças a combinação das minhas dores de estômago com o barulho que faziam no andar de cima que estava em reforma o mês inteiro. Encarando-me no espelho vi claramente minha ressaca através das olheiras, por isso saí praticamente correndo da frente do espelho para a varanda ascender um cigarro. Os remédios pra dor não faziam mais efeito, mas eu os tomava mesmo assim, apenas pela sensação de que ao menos eu estava tentando resolver um dos meus problemas.

Perdi a noção do tempo sentado observando o céu pela varanda, por minutos pude me perder nas nuvens deixando as dores de lado, mas elas voltaram com ainda mais força, força suficiente pra me derrubar da cadeira aos berros. Arrastei-me até o sofá da sala, escalei pelos braços até o ponto de me atirar de costas nele ficando todo desajeitado. Os remédios de antes haviam acabado, apenas a embalagem vazia estava sobre a mesa de centro.

Ainda deitado no sofá, descansei tempo suficiente para fumar mais um cigarro. Voltei para o banheiro para lavar o rosto e enxaguar a boca, segui para o quarto, troquei de roupa, mas continuava com minha aparência típica dos últimos meses, eu era o trapo vestido com roupas desbotadas. Peguei as chaves, dinheiro, receita e esperava o elevador chegar.

Entrei, estava vazio. Morávamos no décimo segundo andar, enquanto descia quase o prédio inteiro lá dentro sozinho tive a sensação de me ver em terceira pessoa e, sinceramente, nenhuma das outras duas pessoas me agradava, muito menos em terceira, todo imponente como “não-pessoa diretamente participante do discurso”... Charlatão!

O elevador parou no sexto andar, entraram duas pessoas, mãe e filho. Meu coração pulou para a boca assim que meus olhos a cobriram de elogios, eu literalmente engasguei naquele momento, o que fez o pequeno rir da cena e a mãe o censurar pela reação. Desculpei-me, foi o que tentei, mas minha voz quase nunca sai na primeira tentativa.

Desde quando me mudei para lá, eu a tinha visto apenas duas ou três vezes, não sei como as descrever. Mas posso tentar ao menos descrever a mãe. Moradora do sexto andar, ela vivia junto com seu único filho, o pequenino tinha cerca de cinco anos. O fato de ser divorciada e livre como um pássaro aumentava minha angústia por uma conversa com ela, como nos velhos tempos em que eu tomaria a iniciativa. Mas, além das dores de estômago e da falta de confiança, algo por trás de tamanha beleza me segurava.

O elevador parou outra vez, mas dessa vez ele parou com um tranco que chacoalhou todo o cubículo com ocupação máxima de até oito pessoas não obesas. Como alguém pode se achar com falta de sorte tendo ao lado uma mulher de longos cabelos negros e a pele branca cobrindo suas pernas finas, o que destacava seus lábios rosados, ainda que fossem de um rosado claro. Mas é claro, o problema era óbvio, um pequeno problema para ser mais específico. Nenhuma fantasia sexual, até mesmo a mais clichê delas, envolve uma criança na cena, bom, talvez... Nove meses depois... Quem sabe?

- Manhê, o quequi aconteceu? – Seus olhos amedrontados começaram a se encher de lágrimas.
- Calma Juninho, não deve ser nada de mais. Daqui a pouco o elevador volta a funcionar. – Disse a mãe em tom reconfortante.

Agarrado as pernas de sua mãe Juninho me olhava assustado prestes a chorar. Agora era sua mãe quem me olhava esperando algum tipo de apoio as suas palavras.

Hesitei em falar alguma bobagem sem pensar, mas seus olhos me pediam ajuda, tinha se passado dez minutos e eu ainda estava calado. Éramos dois adultos e uma criança assustada, estávamos presos dentre daquele elevador. Eu precisava tomar frente assumindo o controle da situação, mesmo não tendo controle nenhum sobre nada.

Abaixei-me para ficar a altura do menino.

- Ei, não se preocupa, ok? Ficaremos bem. – Disse com confiança em minha voz.

Ele entendeu a mensagem, engoliu o choro após acreditar nas minhas palavras. Levantei-me, mas não deixei de dar uma rápida olhada para as pernas finas dela.

- Obrigada. – Ela disse apenas movendo os lábios para que ele não perdesse seu momento de tranquilidade.

Respondi com um sorriso envergonhado.

- Prazer, me chamo Sarah.
- Paulo.
- E esse é o Juninho. – Fez um carinho tirando a franja do rosto do garoto.
- Olá. – Respondi.
- Você é novo aqui?
- De certa forma... Estou ficando na casa de um amigo aqui.
- Ricardo, certo?
- Sim, ele mesmo. Eu não saio muito de dentro do apartamento, acho que é por isso que não nos conhecemos antes. – Era isso ou o fato de eu estar evitando contato com outros seres pensantes.
- Não, não. Eu já te vi por aqui algumas vezes. – Puxou uma mecha de cabelo para trás da orelha.

Fiz cara de sofrimento, a maldita dor no estômago voltava para estragar o momento para mim.

- Tá tudo bem?
- Sim... Quer dizer, não. Eu tô com uma dor horrível no estômago.
- Há há há, você tá com vontade de fazer cocô! – Disse o menino.
- Junior! Não tira sarro da dor dos outros. – Repreendeu a mãe.
- Não tem problema, talvez seja isso que me cure desse sofrimento. – Falei olhando pra ele.

Logo que terminei de falar tive vontade de abrir a porta do elevador e me jogar, se é que era possível. Falar que cagar resolveria meu problema? Quem é o idiota que diz uma coisa dessas na frente de uma mulher linda como Sarah?! Eu me odiei tanto que contive a responder apenas e não mais falar o que me vinha à cabeça. Talvez eu precisasse mesmo colocar algumas coisas pra fora, faria qualquer coisa para acabar com aquilo.

Quarenta minutos se passaram, já estávamos entregues sentados no chão gelado do elevador a espera de uma salvação.

- Ninguém sabe que estamos aqui? A essa altura não valeria a pena sair de casa pra levar ele pra escola!

Sarah estava claramente desesperada, o que não contribuía para manter Juninho calmo, por sorte ele havia pegado no sono e o único a se prejudicar com o tom de desespero dela era eu.

Mas o que eu iria fazer? O que eu deveria falar? Eu era a pior companhia que alguém poderia ter naquele momento, talvez fosse melhor estar sozinha dentro do elevador do que estar ao meu lado me ouvindo falar sobre merda...

- Por favor, não me entenda mal tudo aquilo que eu disse antes... Foi só pra fazer o menino não se sentir mal por ter dado risada.

Ela me olhava calada.

- Pra ser sincero eu não tenho vivido a minha melhor fase, o que provavelmente é fácil de perceber. Eu tenho evitado as pessoas, mas... Acho que já é hora de mudar isso. Você gostaria de...

O elevador balançou, a energia do prédio voltou, estávamos descendo novamente. As portas se abriram e enfim saímos do elevador.

- Que alívio! Acorda meu bem, tudo voltou ao normal.

Não adiantou, ela continuava segurando o sonolento garoto em seus braços.

- Acho melhor eu coloca-lo na cama enquanto preparo algo pra ele comer.

Olhei para meu relógio, já passava das 13h.

- Tá bom.

Ela entrou no elevador.

- Paulo! – Exclamou Sarah segurando a porta.
- O quê?
- Eu estava esperando isso fazia um tempo, mas eu cansei. – Disse ela sorridente – Me liga pelo interfone do prédio pra gente combinar alguma coisa, que tal?
- Claro, farei isso!
- Até logo.

Sai com uma expressão de alegria em meu rosto, seria sorte? Não, eu não acredito mais nisso. Era apenas uma questão de autoestima. Minhas dores sumiram, ainda assim iria buscar meus remédios, só por precaução. Não era mais manhã, era o começo do melhor dia daquela semana.

1 comentários:

Sarah Gouvêa disse...

Adorei!

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